quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

A normalização de um crime: quando Duvivier, Bolsonaro, Wyllis e Crivella estão no mesmo campo



Enquanto Israel coloniza a Palestina, cresce o apoio ao país entre personalidades e
 políticos brasileiros à "esquerda" e à direita ("" do blog)

Por Arturo Hartmann e Bruno Huberman
Na semana passada, o parlamento israelense votou pela legalização do confisco de propriedades privadas palestinas por parte do Estado de Israel. Essa medida acarretou a regularização de 53 assentamentos judeus que haviam sido construídos em terras particulares na Cisjordânia sem autorização prévia do governo, o que era considerado irregular pela legislação israelense até a madrugada da quarta-feira, 8.
A medida poderia ser vista como mais um passo para o isolamento de Israel na comunidade internacional. Praticamente toda a comunidade internacional condena a colonização israelense dos Territórios Palestinos Ocupados (TPO) desde 1967 — ilegal pela lei internacional, com base na Resolução 242 do Conselho de Segurança e na IV Convenção de Genebra. Israel, entretanto, tem historicamente empreendido um bem-sucedido processo de propaganda institucional e limpeza da sua imagem entre importantes setores de diferentes países e instituições internacionais, forjando um apoio às suas políticas apesar das críticas que pipocam de todos os lados. O humorista brasileiro Gregório Duvivier é um importante exemplo do sucesso deste lobby internacional.
 gregorio_duvivier
No início de janeiro, o ator viajou a Israel à convite da Universidade Hebraica de Jerusalém, uma instituição que tem em seus pilares violações contra os palestinos. A universidade fica a pouco metros do bairro de Silwan, principal local de judaização em andamento na cidade, onde assentamentos judeus são erguidos ao redor de casas palestinas: já são 2.800 colonos ilegais vivendo entre cerca de 100 mil palestinos, segundo a ONG israelense Btselem. O crescimento desses colonos, entre 2009 e 2016, foi de 70%. Nesse período, 68 famílias palestinas foram expulsas de Silwan, Sheik Jarrah e do quarteirão muçulmano da Cidade Velha. Algo que pode passar batido diante do olhar de um turista de primeira viagem.
O convite a Duvivier foi para o seminário “Brasil, Israel e Palestina: política, religião e a busca pela paz”, organizado pelo professor James Green, brasilianista da Brown University, e Michel Gherman, docente da Hebraica e coordenador do Centro de Estudos Judaicos da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A viagem do humorista se insere em uma agenda específica, que a acadêmica Berenice Bento chamou em um recente artigo de “redwashing”: um tipo de discurso de “esquerda” que serve para limpar a imagem de Israel, posicionando o país como a única democracia liberal do Oriente Médio, respeitadora dos direitos humanos, como a igualdade para mulheres e homossexuais. Tal como Bento descreve, aqueles que praticam o “redwashing” terminam não apenas sendo cúmplices da expulsão e segregação dos palestinos, como são parte estruturante do projeto sionista, que busca estabelecer uma ampla maioria judaica sobre a terra. (leia o artigo em http://somostodospalestinos.blogspot.com.br/2017/02/redwashing-discursos-de-esquerda-para.html)
Duvivier não é o primeiro garoto propaganda do campo progressista israelense no Brasil. Um ano antes, em janeiro de 2016, o deputado federal Jean Wyllis (Psol), defensor dos direitos da comunidade LGBT, da descriminalização da maconha e de outras pautas ligadas ao campo progressista, provocou barulho nas redes sociais e entre a esquerda brasileira — inclusive dentro do seu partido — por fazer o mesmo trajeto. Estes são apenas dois exemplos de um antigo e bem sucedido esforço de propaganda e lobby israelense, conhecida como hasbará (“explicação”, em hebraico). 
UM HUMORISTA NA PALESTINA 
Duvivier é famoso por vídeos de humor no canal do Youtube “Porta dos Fundos” que colocam o dedo na ferida, além de colunas no jornal Folha de S. Paulo em que defende pautas progressistas e ataca políticos — muitas vezes sendo acusado de extremismo por seus detratores. O humorista, entretanto, adotou uma abordagem mais low profile durante visita ao Oriente Médio, relativizando crimes e consensos internacionais em torno da questão palestina.
Segundo Guilherme Cohen, candidato a vereador do Rio de Janeiro pelo Psol em 2016 e cicerone de Wyllis e Duvivier na Terra Santa, o humorista teria rapidamente compreendido a complexidade da questão Palestina/Israel e fugido de binarismo em seu discurso na Universidade Hebraica. “O grande problema pra mim é quando você não vê pessoas e passa a ver somente bandeiras ou religiões. Quando você começa a enxergar pessoas, você entende que não é apenas um país, são 7 milhões de países, pois cada cidadão têm sua própria narrativa”, disse Duvivier na palestra. (!!!!! Não são bandeiras .... mas sangue dos palestinos, humorista - N.do blog.)
As postagens de Duvivier em sua conta no Instagram são ainda mais reveladoras da sua adesão à agenda da nova esquerda sionista.
Um post de 13 de janeiro mostra que o humorista esteve em Bethlehem, cidade palestina nos TPO, diante do Muro (que separa e anexa terras palestinas, construído a partir de 2002), um monumento às práticas políticas mais recentes de colonização. Diante da estrutura de concreto armado de oito metros de altura, ele escreve na legenda da foto: “Israel-Palestine border” (fronteira Israel-Palestina). (!!!! Tá de brincadeira , humorista - N. do blog.) Alguém da comitiva deve ter esquecido de avisar a Duvivier que atrás daquele Muro não havia Israel, mas os vilarejos palestinos de Al Walaja e Husan, que repousam “presos” entre a Israel reconhecida pela comunidade internacional e o Muro. Em outro post, em que se lia pichado no Muro “Make hummus not walls” (faça húmus, não muros), ele escreveu “Coexist” (coexista). Talvez fosse uma piada. (a vítima com seu assassino????, humorista - N. do blog.)
Screen Shot 2017-02-14 at 12.41.45 PM 
Ainda em Bethlehem, Duvivier foi apresentado ao palestino Jamil. Cohen traz um relato do encontro: “Ele nos contou sua história de vida, que é marcada por muita violência, tragédias e luta pela paz. Jamil nos disse que participou da primeira intifada, sendo um dos que mais jogava pedras nos soldados israelenses. Viu seu irmão de apenas 14 anos ser morto por um soldado. Viu muitos amigos morrerem nesse conflito tão terrível. Ele tinha tudo para ter raiva, ódio e todo o sentimento de vingança em relação aos Israelenses. Mas não! Um acontecimento mudou toda a sua visão de mundo. Viu pela televisão uma notícia sobre um atentado terrorista de um grupo palestino em Jerusalém, que matou muitas crianças israelenses. Quando sua mãe começou a chorar, ele perguntou:
– Por que você chora, mãe? Isso foi do lado de lá… Os mortos não são palestinos, mas judeus – ele questionou.
– Choro porque outras mães perderam seus filhos pela violência, como eu. A dor é a mesma – respondeu ela.
E arrematou: “Jamil transformou tudo isso na luta pela paz! Hoje participa de diversos movimentos com Israelenses e Palestinos que lutam contra a ocupação e pela criação de 2 estados para 2 povos. Nosso encontro terminou com Jamil dizendo: ‘Não há outro caminho senão a paz’”.
Duvivier concordou. “Esse cara é meu herói. Conheci Belém com o militante palestino Jamil Qassas, que tem buscado alternativas para a paz. Procurem saber.” Em outro post, poucos dias depois, o humorista complementa: “O pior conflito, o mais difícil de resolver, não parece ser entre judeus e palestinos, mas entre seculares e fundamentalistas. A paz não interessa a quem vive de disseminar o medo. Qualquer semelhança com o Brasil não será mera coincidência.”
Como recomendado, fomos procurar saber mais. A atitude de Jamil pode ser vista como nobre, como uma saída para existir alienado de tanto sofrimento, da dor que transforma alguém em um monstro. O tema da resistência na sociedade palestina, no entanto, é um debate delicado e gira em torno da legitimidade do uso da violência. Qual a forma que pode fazer mudar as relações de poder para que o conjunto de Palestina/Israel possa ser menos autoritário e desigual diante do projeto do Estado judeu? Como os crimes de Israel – que trazem debates como o direito de retorno e a restituição de terra – podem ser expiados? Isso depende de como a pessoa de fora olha para os muros, os postos de controle e uma pesada presença militar, seja o cenário os morros do Rio de Janeiro ou as montanhas da Palestina.
A comitiva de Duvivier poderia ter recorrido à lei internacional para prover uma melhor explicação para a resistência palestina. Diz a resolução da ONU, de 29 de novembro de 1978, com o título “Importância da realização universal dos direitos dos povos à autodeterminação e da garantia urgente de independência para países coloniais e povos de garantia efetiva e observância de direitos humanos”. No seu item 2, “reafirma a legitimidade da luta dos povos por independência, integridade territorial, unidade nacional e liberação de dominação colonial e estrangeira e de ocupação estrangeira por todos os meios disponíveis, particularmente a luta armada”.
Há uma diferença entre luta armada e terrorismo, entre resistência e crimes de guerra contra civis, mas ao aceitar as molduras (físicas e ideológicas) traçadas pelo establishment de esquerda israelense, Duvivier termina por condenar a resistência palestina, colocando-a na mesma balança que os crimes coloniais israelenses. E mais: coaduna com a coexistência sem responsabilização que silencia os últimos cem anos de gradual desaparecimento da Palestina.
Quando esquerda e direita se encontram
As viagens de Duvivier e Wyllis são parte de um esforço coordenado de propaganda de militantes sionistas ligados ao campo da esquerda no Brasil e em Israel, como o professor Michel Gherman e o militante do Psol Guilherme Cohen, e que conta com o apoio do establishment sionista no Brasil, como a Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (Fierj), movimentos sionistas juvenis, partidos políticos e instituições universitárias. Já embarcaram neste avião o secretário-executivo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e ex-presidente da Comissão da Anistia do Brasil, Paulo Abrão (que defendeu Wyllis publicamente durante o entrevero público de sua viagem) e o professor de Relações Internacionais da UFRJ e comentarista da Globo News, Fernando Brancoli.
O discurso da esquerda sionista mistura em uma mesma narrativa a defesa de medidas como o Muro da Cisjordânia, a colonização dos TPO e o interminável processo de paz com elogios às liberdades políticas e econômicas que gozam os judeus israelenses e críticas ao governo Netanyahu, numa espécie de mea culpa. Vale dizer que, embora divergentes entre si em questões econômicas e sociais, a esquerda e a direita sionista não são muitos diferentes aos olhos de um palestino. Desde o início da colonização sionista da Palestina, no final do século XIX, ambos os campos direcionaram as suas políticas para a realização da visão hegemônica sionista sobre o território palestino: a constituição de um estado-nação majoritariamente judaico do qual os nativos palestinos não fariam parte.
A força do lobby israelense é motivo de controversa global, sendo alvo de estudos acadêmicos (o livro The Israel Lobby, dos americanos John Mearsheimer e Stephen Walt, aborda a influência israelense nos EUA — link para o prefácio em inglês) e de reportagens investigativas (uma recente série da Al Jazeera mostra a agressiva atuação de diplomatas israelenses no Reino Unido). Este instrumento de propaganda, entretanto, não é um expediente exclusivo dos liberais, sendo extensamente utilizado pelos conservadores israelenses.
No Brasil, os esforços de propaganda da direita sionista tem encontrado apoio principalmente entre os setores evangélicos, como o pastor Marcelo Crivella (PRB-RJ), prefeito do Rio de Janeiro, e o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ). As igrejas pentecostais ao redor do mundo tradicionalmente veem os judeus como os legítimos habitantes da bíblica Terra de Israel e são importantes apoiadores das políticas do moderno Estado de Israel.
Crivella, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, é talvez o maior defensor dos interesses de Israel entre os políticos brasileiros. É de sua autoria o projeto de lei que levou à criação do Acordo de Livre Comércio Mercosul-Israel, em 2009, e também o que criou o “Dia da Amizade Brasil-Israel”. O bispo ainda empresta a sua voz para a música “Sou Israel”, que tem mais de 300 mil visualizações no canal do Templo de Salomão no Youtube.
O mandatário carioca já esteve em Israel algumas dúzias de vezes, chegando a morar em um kibutz em uma delas. “Brasil e Israel tem tudo a ver”, afirmou durante visita à Fierj na campanha para a prefeitura do ano passado. Ele defende uma maior aproximação comercial e política entre os países, principalmente na importação de técnicas e tecnologias israelenses em agricultura e segurança. Logo após ser eleito prefeito do Rio de Janeiro, Crivella viajou à Israel. De lá, voltou com a opinião de que o Rio “deveria ser murado como Jerusalém” para resolver seus episódios de violência.
Outro candidato à prefeitura do Rio de Janeiro que esteve em Israel recentemente foi Flavio Bolsonaro, que em maio deste ano foi acompanhar o batismo do pai nas águas do rio Jordão, o deputado federal Jair Bolsonaro, no rio Jordão, pelo pastor Everaldo, presidente do PSC. A família Bolsonaro recentemente aderiu em peso ao partido evangélico. Durante a viagem a Israel — que ocorreu nos dias da votação do impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados — os Bolsonaro reuniram-se com políticos e representantes comerciais israelenses das áreas da segurança e da agricultura e prometeu fortalecer os laços entre os dois países.
Assim, dentro de um campo que, pouco a pouco, ignora os pontos que poderiam levar a uma resolução da questão palestina, consolida-se um discurso que se afasta de qualquer processo de paz, fazendo marchar a colonização que gradualmente quer apagar, ou limpar, como diria o historiador Illan Pappé, a Palestina.
Texto publicado originalmente no blog Arabizando, da Revista Fórum

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

"Redwashing": discursos de "esquerda" para limpar os crimes do Estado de Israel

Berenice Bento | Natal (RN) - 27/01/2017



O 'redwashing' não é apenas cúmplice, no sentido de assistir ao desaparecimento do povo palestino; é parte estruturante da sofisticada e tentacular 
necropolítica do Estado de Israel
(N.do Blog.: necropolitica - política cuja base é descartar vidas que não tem valor para o Estado )
 
 
Não é apenas a força militar que explica o segredo do sucesso do Estado de Israel em sua política de eliminação do povo palestino. A neocolonização que ali ocorre tem níveis diferenciados de sofisticação. Não estamos diante de um processo de genocídio clássico, onde a morte do Outro acontece rapidamente, economizando, assim, recursos e tempo. Varrer a nação palestina do mapa o leva a estruturar um complexo edifício de políticas que, lentamente, têm minado qualquer possibilidade de existência do Estado Palestino. Nada parece escapar à necropolítica (conceito de Achille Mbembe) tentacular do Estado de Israel. Até os corpos dos/as palestinos/as executados/as pelo Exército, muitas vezes, levam anos para serem entregues às famílias, em uma clara política de terrorismo psíquico (há diversas matérias sobre o assunto, inclusive na nossa imprensa mainstream).

Se, internamente, a força bélica garante o êxito da necropolítica, na disputa da opinião internacional, outras armas são acionadas, entre elas, as retóricas que constroem imagens de um país democrático, garantidor dos direitos humanos (com destaque para a liberdade para os LGBTs) e dos animais. Sarah Schulman, em artigo publicado no New York Times, cunhou um termo que hoje é amplamente citado. O que o Estado de Israel faz é pinkwashing. A palavra “cal” (tinta que utilizamos para pintar paredes) chama-se whitewashing. A expressão pinkwashing (tinta rosa) significa, portanto, um conjunto de discursos que utiliza a suposta liberdade LGBT para limpar, esconder os crimes contra a humanidade cometidos pelo Estado de Israel. Os discursos funcionam, ali, como armas de guerra, pois, simbolicamente, estruturam uma posição superior da nação israelense em relação ao resto do Oriente Médio e, mais especificamente, asseguram uma suposta legitimidade e superioridade moral em relação ao atraso do povo palestino. 
Outro conceito que também denuncia o engodo do Estado de Israel em se apresentar como defensor dos animais: veganwashing. Para a realização exitosa da “limpeza étnica”, que começou em 1948, outras formas de limpeza foram e são necessárias. O que aponta para o caráter singular do tipo de neocolonialismo que ali acontece.
Não tenho como objetivo, neste artigo, discutir o veganwashing ou o pinkwashing. Gostaria de propor outro conceito que tentará entender o papel nefasto que discursos apoiados em um suposto ideário de esquerda terminam por legitimar as ações do Estado de Israel. Vou chamá-lo de redwashing, ou dispositivos discursivos autodenominados de “esquerda” que visam limpar os crimes do Estado de Israel. O “red” (vermelho) faz referência à cor símbolo da esquerda. Ainda que os sionistas de esquerda sejam os mais conhecidos por fazerem tal tipo de limpeza, esta prática discursiva, redwashing, não se limita a este braço discursivo. Para uma discussão do redwashing no âmbito do sionismo de esquerda, sugiro a leitura do artigo “Com discurso ‘pacifista’, esquerda sionista contribui para extermínio do povo palestino”, de Shajar Goldwaser. (http://somostodospalestinos.blogspot.com.br/2017/02/a-esquerda-sionista-e-o-exterminio-do.html)
O redwashing se estrutura em torno de alguns eixos discursivos:
Defesa do povo palestino. Os adeptos do redwashing farão um discurso quase emocionado em defesa do povo palestino. Dirão que o governo israelense é cruel. Apontarão, em minúcias, cada uma das ações deste governo que transforma a vida do/a palestino/a em um inferno através de mecanismos burocráticos infindáveis. Poderão, inclusive, dedicar parte de seu tempo para proteger o coitado do povo palestino contra um governo desumano. Denunciarão, também, as mazelas do neoliberalismo para a vida do/a trabalhador/a palestino/a que, geralmente, recebe um terço do valor do salário mínimo pago a um/uma israelense.
Conheci uma senhora israelense que, depois de uma dissertação redwashing sobre a miserabilidade dos/as palestinos/as e de sensibilizar a audiência por seu trabalho humanitário nos postos militares de controle (os checkpoints), disse, orgulhosa de si mesmo: “mas eu pago minha empregada palestina de acordo com a lei”. Ao final, você estará convencido/a de que ele/ela é mais palestino/a que qualquer palestino/a.
A visão paternalista/maternalista escamoteia a verdade. Ele/ela sabe que não se trata de uma “política de governo”, mas de Estado. O Judiciário, o Executivo e o Legislativo atuam em harmonia para dar prosseguimento à política de roubo das terras do povo palestino e à eliminação física das pessoas palestinas. Quando um/uma palestino/a é preso (acusado, geralmente, de atirar pedras nos soldados), será entregue à Justiça militar. Todo o processo de terror acontece rigorosamente dentro da lei. Ou seja, as esferas constitutivas do Estado trabalham juntas para garantir a continuidade da necropolítica que o Estado de Israel vem implementando desde sua fundação. Ao limitar a opressão que o povo palestino sofre aos tropos “burocracia” e “governo”, se está tecendo um delicado subtexto: estas políticas contra o povo palestino não são estruturantes do Estado de Israel. Vamos mudar o governo e tudo se transformará. No entanto, até o momento, Estado de Israel & limpeza étnica são termos indissociáveis.
Defesa dos dois Estados. Para provar, mais uma vez, que são mais palestinos/as que os/as próprios/as palestinos/as, os/as adeptos/as do redwashing farão uma defesa inflamada do direito do povo a ter seu Estado. Alguns dirão que ainda não é momento porque é necessário acabar com os terroristas; outros, farão discursos mais radicais, defendendo o fim da ocupação imediatamente. Pergunte para ele/a: qual o limite territorial? Os anteriores a 1967 ou 1948? O que será feito com os mais de 500 mil colonos israelenses que roubaram e roubam, sob proteção e incentivo do Estado de Israel, as terras dos/as palestinos/as? Olhem o mapa abaixo. Vejam o que restou da Palestina. Um corpo político amputado.
Todos/as os/as palestinos/as com quem conversei nos 66 dias das minhas viagens a Israel e aos Territórios Ocupados da Palestina afirmam que a fragmentação territorial, pós-Acordos de Oslo (1993), e a instalação dos assentamentos que acontecem desde 1970, tornaram inviável a solução dos dois Estados. A única solução possível, afirmaram, seria um único Estado. Pergunte para os formuladores do redwashing o que eles pensam desta proposta. Vão continuar insistindo no direito do povo palestino a seu Estado, mas não saem deste discurso abstrato (sugiro a reportagem especial da Al Jazeera sobre o lobby de Israel na Inglaterra, utilizando o “disfarce” da defesa de dois Estados).
O Estado de Israel age como se os Territórios Ocupados já fossem parte do seu território, mas anexá-los abertamente seria trazer para seus marcos nacionais a população palestina. O que fazer? O caso de Jerusalém Oriental (ocupado por Israel) é paradigmático. Embora, internacionalmente, a cidade seja considerada ocupada há 50 anos, para Israel, de fato, Jerusalém Oriental já foi anexada. Mas se foi anexada, todos os habitantes são israelenses? Não. Os/as palestinos/as não são cidadãos/cidadãs; têm uma residência “permanente”, revogável a qualquer momento pelo Estado de Israel.
Direito de retorno dos/as palestinos/as. Em 1948, o Estado de Israel implementou a primeira etapa da limpeza étnica. Vilas inteiras foram destruídas e milhões enviados para o exílio ou para campos de refugiados (sobre a limpeza étnica, sugiro a conferência de Ilan Pappe). Esta tragédia, ou Nakba, em árabe, não parou ali; é contínua. Uma das reivindicações centrais dos/as palestinos/as é o direito de retorno, reconhecido como legítimo pela ONU. Muitas famílias palestinas ainda têm a chave da sua casa roubada pelo Estado de Israel. Sobre esta reivindicação, os adeptos do redwashing dirão que já se passaram muitos anos, gerações nasceram, que houve guerras e o Estado de Israel venceu, sendo a proposta do retorno inviável.
Direito universal do “retorno” do judeu. Desde a fundação do Estado de Israel, há uma lei que assegura a todos os judeus do mundo o direito a “voltar” para Israel. Ora, se a “volta” se refere a um passado bíblico longínquo, nada mais coerente que os praticantes do redwashing também se posicionem contrários a este direito, afinal, já se passaram séculos. Esta foi a pergunta que fiz para a senhora praticante do redwashing, a mesma que tem uma emprega palestina, a mesma contrária à volta dos/as palestinos/as. Ela virou a cabeça e me disse: não vou responder a esta questão.
Solução. No léxico redwashing estão interditadas palavras como “genocídio”, “apartheid”, “limpeza étnica”. Admite-se que o “governo” comete “opressão”. O que fazer para acabar a opressão? Desista de convencê-lo/a de que solidariedade internacional ao povo palestino hoje, mais do que nunca, passa pela adesão ao movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDSM). Ele/ela, provavelmente, irá insistir que é necessário defender o diálogo entre as partes envolvidas no “conflito” (ilusionismo retórico que sugere certo equilíbrio de forças entre israelenses e palestinos). Pouco importa se a Palestina segue desaparecendo, que os métodos de terror utilizados pelo Estado de Israel não arrefeçam ao longo dos seus anos de existência. E, ao final, o praticante do redwashing dirá que é aliado do povo palestino. Com um aliado como este, quem precisa de inimigo?  
Este artigo não tem como objetivo esgotar todos os elementos discursivos estruturantes do redwashing. Eles foram sendo tecidos a partir da minha vivência e leituras. Escutei muitas falas e li diversos artigos de ONGs israelenses que se dizem defensoras do povo palestino. A grande maioria, infelizmente, no suposto trabalho de quebrar o silêncio das necropolíticas implementadas pelo Estado de Israel, na verdade, fazem um sofisticado trabalho de justificar estas mesmas políticas acionando o ideário socialista. Dizem que há exagero em definir o que acontece como genocídio. A este excesso linguístico praticado por ativistas de movimentos de solidariedade do mundo inteiro, os redwashing não têm nenhuma timidez em tipificá-lo como “antissemita”.
Em um destes encontros, escutava, mais uma vez, a importância da existência do Estado de Israel para proteger uma massa de trabalhadores pobres, vindos da Europa no início do século 20, perseguidos por governos antissemitas. De repente, parei, olhei em volta e perguntei ao meu interlocutor: Você esquece onde estamos? Estávamos no Campo de Refugiados Aida. Ali vivem, há décadas, milhares de palestinos/as que tiveram suas casas roubadas para construção do Estado de Israel. Será que há uma superioridade moral dos excluídos que os habilita a se transformar em opressores? O que faz com que a minha dor me qualifique para entrar num regime de opressão do Outro? É como se o meu interlocutor não visse a tragédia humana que nos cercava. Na entrada do Aida, em uma das paredes, era possível ler dezenas de nomes de crianças que foram assassinadas pelo Estado de Israel. Há um nível de blindagem emocional entre os redwashing que não os deixa se aproximar empaticamente da dor dos/as palestinos/as, de sentir como sua a dor do outro, princípio, a meu ver, que estrutura a noção de solidariedade internacional.
No entanto, para recuperar a esperança, eu também conheci israelenses ativistas do BDSM, jovens que se negam a servir ao exército e que veem o alto índice de suicídio nas Forças Armadas Israelenses como um sintoma de uma sociedade que, hegemonicamente, tem a violência como um valor organizador do olhar sobre o Outro Absoluto (Simone De Beauvoir): o povo palestino.
Conforme eu afirmei, este discurso se espalha de forma rizomática. Não é propriedade de um grupo religioso, nacional, étnico ou político. Daí sua eficácia. É possível encontrá-lo entre cidadãos/cidadãs com certa simpatia pela esquerda, até entre deputados defensores dos direitos humanos e dos direitos LGBTs (e, aqui, tragicamente, se combinam dois tipos de limpeza discursiva: o redwashing e o pinkwashing).
Em 1956, Aimé Césaise escreveu uma carta rompendo com o Partido Comunista Francês (PCF). Afirmava que não iria compactuar com os crimes de Stalin e, tampouco, seria cúmplice de um Estado que, embora se afirmasse socialista, era, em sua essência, capitalista e implementava a mesma política colonialista de outros Estados europeus, invadindo e massacrando outros povos. Com este ato, o poeta da negritude retoma o eixo que, historicamente, tem orientado as sensibilidades de esquerda: a solidariedade internacional não pode estar condicionada à identidade nacional ou religiosa.
A luta por justiça social interseccional continua, a meu ver, sendo o vetor que unifica os que lutam contra as múltiplas formas de exclusão em contexto neoliberal globalizado. O discurso redwashing, assim como a política do PCF naquele momento, não é apenas cúmplice, no sentido de assistir ao desaparecimento de um povo. É parte estruturante da sofisticada e tentacular necropolítica do Estado de Israel.
Berenice Bento é doutora em Sociologia e professora da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte).
https://paginaglobal.blogspot.com.br/2017_02_02_archive.html  

A Esquerda Sionista e o extermínio do povo palestino

Com discurso 'pacifista', esquerda sionista contribui para extermínio do povo palestino

A maneira que Ben Gurion, fundador de Israel e ícone da esquerda, encontrou para lidar 

com esse dilema veio à tona na chamada Guerra de Independência de 1948, 

de que a esquerda se orgulha de ter sido protagonista e por marcar a concretização do seu ideal. Esta guerra foi, de fato, uma enorme limpeza étnica, 

onde dois terços da população palestina – aproximadamente 800 mil pessoas –

 foram expulsos de suas casas e mais de 500 vilas foram destruídas. 

Neste grande passo, a estrutura da sociedade civil palestina fora aniquilada e,

 o que restou dela, exilada.


Por trás do ingênuo pedido por 'dois Estados para dois povos' e por 'diálogo', se esconde a perpetuação de um sistema de discriminação e segregação racial. 
Em sua recente viagem a Israel, o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) parece ter descoberto a chamada “esquerda sionista”. O discurso desta esquerda preza pelo diálogo e seus líderes dizem buscar a paz. Eles culpam os extremistas, em geral os religiosos, e defendem a moderação como o caminho para a coexistência. Mas seriam eles capazes de encontrar uma solução para a questão palestina, caso tivessem a oportunidade?
Por trás do ingênuo pedido por “dois Estados para dois povos” e pelo “diálogo entre os povos” se esconde a perpetuação de um sistema de discriminação e segregação racial, onde os judeus sempre serão a fonte da democracia e da racionalidade e os palestinos serão os terroristas. Afinal, a esquerda sionista foi responsável pela criação de Israel e pela forma com que este Estado se configurou e se configura até hoje, e usa seu discurso para tentar preservar uma supremacia racial judaica, mesmo que tenha que abrir mão de parte da “Terra de Israel”.
O Sionismo Socialista, ideologia na qual se baseia a esquerda sionista, chegou à Palestina na década de 1920, no período da segunda Aliyá (imigração judaica à “terra de Israel”). Os Chalutzim (“Pioneiros”, em hebraico – nome dado a estes imigrantes, mesmo que já houvesse uma colonização judaica anterior) desembarcaram em uma região onde palestinos e judeus viviam integradamente, do ponto de vista social, econômico e cultural. Mesmo vindos da Europa Oriental e carregados dos ideais socialistas da Revolução Russa, não conseguiram desconstruir seu olhar orientalista e racista. Decidiram instituir a Avodá Ivrit (trabalho hebreu), que consistia em usar exclusivamente mão de obra judaica, sob o argumento de formar um proletariado e campesinato judaico que criasse vínculos à nova terra. Esse processo foi o que iniciou a segregação entre os dois povos e, posteriormente, levou aos primeiros conflitos. Basta lembrar os bucólicos Kibbutzim, comunidades agrícolas socialistas que, apesar do seu caráter coletivista e igualitário, não admitiam membros palestinos. Este processo pode ser bem observado no documentário Jaffa: The Orange’s Clockwork, que ilustra a deterioração das relações entre judeus e palestinos a partir da chegada da segunda onda de imigração, liderada pelos socialistas.
ishaip / Flickr CC

Jovens socialistas na manifestação pelo Dia dos Trabalhadores em Tel Aviv em 2009
O Kibbutz veio a se tornar a base econômica, social e cultural da nova sociedade judaica, motivada pelo lema “um povo sem terra para uma terra sem povo”, que via na Palestina a possibilidade de sua modernização e emancipação. O que os sionistas socialistas não esperavam era encontrar uma vibrante sociedade palestina no local, o que os impediria de concretizar o seu ideal máximo: a criação de uma Democracia Judaica.
A maneira que Ben Gurion, fundador de Israel e ícone da esquerda, encontrou para lidar com esse dilema veio à tona na chamada Guerra de Independência de 1948, de que a esquerda se orgulha de ter sido protagonista e por marcar a concretização do seu ideal. Esta guerra foi, de fato, uma enorme limpeza étnica, onde dois terços da população palestina – aproximadamente 800 mil pessoas – foram expulsos de suas casas e mais de 500 vilas foram destruídas. Neste grande passo, a estrutura da sociedade civil palestina fora aniquilada e, o que restou dela, exilada.
Era essencial provar, inclusive para eles mesmos, que os judeus eram os que possuíam o legítimo direito àquela terra. Por isso os israelenses sempre se referem àquela região como “Terra de Israel”, nunca como Palestina. Além disso, os palestinos que conseguiram permanecer em suas casas depois da guerra de 1948 foram chamados de “árabes-israelenses” e divididos em grupos etnicorreligiosos como árabes-muçulmanos, árabes-cristãos, beduínos e drusos, de maneira a mascarar suas raízes e seu passado comum. As aldeias destruídas foram enterradas embaixo de novos assentamentos, parques, florestas e estradas, recebendo nomes hebraicos para ocultar que, naquela região, se falava o árabe anteriormente. Para a esquerda sionista concretizar seu discurso, fora necessário exterminar uma cultura e apagar a sua história. Só desta maneira a Democracia Judaica poderia se tornar uma realidade.
Shajar Goldwaser

Kibbutz Tzipori, na Galileia, onde antes ficava a aldeia palestina de Saffuryia
Mesmo assim, ainda faltava algo à sociedade kibbutziana. Os israelenses ainda não haviam concretizado um dos seus maiores desejos: o de “poder rezar no Muro das Lamentações”, em Jerusalém. Não que antigamente não se pudesse rezar lá; desde que se tem registro, sempre houve uma comunidade judaica na cidade. Depois da guerra de 1948, em resposta à limpeza étnica feita por Israel, diversos líderes árabes expulsaram populações judaicas de seus países ou restringiram seus direitos, inclusive o Rei da Jordânia, que fora constituído como protetor de Jerusalém Oriental e barrou a entrada ao Muro das Lamentações.
Em junho de 1967, a Guerra dos Seis Dias eclodiu e Israel facilmente ocupou a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, os territórios que faltavam para controlar a Palestina na sua totalidade. Lá se encontravam, além dos habitantes nativos, os refugiados remanescentes das terras anteriormente conquistadas por Israel. Uma nova limpeza étnica a esta altura seria extremamente custosa, política e militarmente. Por isso, o status destes territórios, até os dias de hoje, é de Territórios Ocupados. Anexá-los significaria abrir mão de um dos dois princípios que havia guiado a esquerda israelense até então e definido o Estado de Israel: o caráter judaico, já que, se a população palestina anexada virasse cidadã, se tornaria maioria; ou o caráter democrático, já que Israel teria que virar um regime de apartheid explicitamente.
Wikimedia Commons

Apoiadores do Meretz, partido israelense de esquerda, durante Marcha pelos Direitos Humanos em Tel Aviv em 2012 
A direita israelense optou por preservar o caráter judaico, e começou a tratar os novos territórios – mas não a população que neles habitavam – como parte de seu país. A esquerda, diferentemente, pretende não abrir mão de suas premissas e, para preservá-las, se dispõe a abrir mão dos territórios conquistados em 1967 e ocupados até hoje.
Entretanto, o problema da solução de “dois Estados” é exatamente o caráter da sua solução: dar aos palestinos o que fora ocupado em 1967, ignorando o que fora invadido, ocupado e limpado etnicamente em 1948, quando o Estado de Israel foi criado. Este discurso de “dois Estados para dois povos”, que seria aquele que traria a paz e a coexistência para a região, não leva em consideração a forma com que o Estado de Israel foi criado e os terríveis crimes dali resultantes. Ele também não visa uma melhor convivência com os palestinos, mas sim preservar a maioria judaica necessária para a manutenção do regime de supremacia etnicorracial da artificial democracia israelense, que segrega as partes não-judaicas dos seus habitantes.
A realidade dos Territórios Ocupados, entretanto, mostra que o projeto da direita teve sucesso absoluto. Nas últimas décadas, Israel construiu uma complexa rede de estradas, assentamentos, colônias agrícolas, centros industriais e até uma universidade na Cisjordânia, dentro dos Territórios Ocupados Palestinos, para uso restrito de judeus israelenses. Tudo está circundado por muros e cercas, com soldados israelenses fazendo a guarda, de forma totalmente integrada com o território internacionalmente aceito de Israel (baseado nas fronteiras de 1948). A anexação ainda não se deu de forma legal, mas a infraestrutura dos assentamentos judaicos mostra que aquelas terras já foram, na prática, incorporadas ao país.
Hoje, na Cisjordânia, moram mais de 500 mil colonos israelenses que, mesmo residindo fora de seu país, ainda possuem plenos direitos de cidadania, como se nacionais israelenses em território nacional israelense fossem. Isso em meio aos aproximadamente 3 milhões de palestinos que vivem sob regime militar, baixo um conjunto de leis militares e com acesso a recursos naturais completamente restrito. Isso configura uma clara situação de segregação racial entre as populações. Mas a Ocupação, mesmo depois de 48 anos, ainda possui o status oficial de temporária, e os únicos que realmente ainda acreditam nisso são os sionistas de esquerda. Em lugar de buscar propostas condizentes com a realidade, continuam defendendo políticas antiquadas, de um tempo em que uma retirada israelense ainda era viável.
Palestine Solidarity Campaign / Flickr CC

Mapa mostra como terras palestinas têm se tornado israelenses através de acordos e da ocupação
Na hora de buscar o diálogo com os palestinos, se portam de maneira arrogante. Apenas irão estreitar laços com seus semelhantes, laicos e ocidentalizados. Pouco importa quem os palestinos irão escolher como seus porta-vozes, e os motivos para tal. O Hamas, por exemplo, mesmo tendo sido eleito democraticamente em 2006 como maioria no Parlamento palestino, é considerado um grupo fundamentalista islâmico e terrorista, e, portanto, incapaz de dialogar, mesmo que suas declarações tenham demonstrado o contrário.
Também ignoram que os palestinos sejam os oprimidos dessa situação e, ao colocá-los num patamar de igualdade com os israelenses, desconsideram os inúmeros crimes e injustiças que os palestinos sofreram historicamente e sofrem atualmente. A esquerda condena os atentados realizados pelas milícias palestinas, enquanto se silencia perante os genocídios cometidos por seus concidadãos, a exemplo da Operação Margem Protetora em 2014, na qual foram mortos 2.200 palestinos em Gaza. Em relação a esta ação militar comandada pelos setores da direita, o líder do partido Avodá (Partido Trabalhista, de centro-esquerda), Isaac Herzog, se declarou favorável e afirmou: "Quando você se prepara a paz, também deve se preparar para a guerra, a fim de proteger seu povo, especialmente nesta região". A líder do Meretz (partido de esquerda), Zehava Gal-On, após uma reunião com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, naquela ocasião declarou: "Eu também lhe disse que não há debate sobre o nosso legítimo direito de se defender, mas, com base em toda a minha experiência, sei que a força não erradicará o terrorismo".  Mesmo se mostrando mais levianos que a direita, ainda conservam o seu belicismo e não reconhecem a violência palestina como resposta a quase um século de colonização.     
A esquerda de Israel se considera como tal pelo simples fato de defender que, entre os judeus, deve haver mais igualdade e participação política, mais direitos civis e mais liberdade individual. Em relação aos palestinos, ela se mostra tão racista quanto a direita. Ela não reconhece os crimes que ela própria cometeu contra os palestinos, não reconhece que os palestinos têm o direito de retornar às suas vilas, terras e cidades roubadas, não reconhece o direito legítimo da população palestina de resistir contra a massiva ocupação militar que sofre e, finalmente, defende um modelo de Estado nacional baseado na segregação etnicorracial – o Estado Judaico. Com seu discurso proto-pacifista, contribui para o lento e contínuo extermínio do povo palestino, fazendo da ocupação uma situação permanentemente temporária. Não está preparada para uma solução justa, que una todas as pessoas de Israel e da Palestina sob um regime civil e laico, com direitos universais a todas as pessoas, independentemente de etnia ou religião. A esquerda sionista de Israel não está preparada para a democracia.
(*) Shajar Goldwaser é israelense residente no Brasil e bacharel em Relações Internacionais pela PUC-SP.
Postado: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/42968/com+discurso+pacifista+esquerda+sionista+contribui+para+exterminio+do+povo+palestino.shtml

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

DENTRO DE GAZA : OFICINAS E FÁBRICAS - Parte 1




Este documentário  investiga as terríveis condiciones humanitárias na Franja de Gaza depois das continuas ofensivas israelenses.

ISRAEL ATACA A FRANJA DE GAZA COM TANQUES E CAÇAS

video

Vídeo-    http://178.32.255.194/hispantv/20170206/israel-gaza.mp4
Israel  bombardeou, nesta segunda-feira (06/02/2017) a  Faixa de Gaza depois de um tanque israelense ter disparado contra a mesma área.
Como sempre alega para justificar seus ataques , o exército israelense disse que os ataques foram realizados em resposta aos mísseis disparados de Gaza.
O comunicado do Exército de regime  deTel Aviv também relata que seus aviões de guerra atingiram três infra-estruturas do Movimento  de Resistência (Hamas) no enclave costeiro.
Apesar das autoridades do Hamas não comentaram até agora sobre os fatos, fontes de segurança e médicos palestinos  anunciaram que, como resultado do ataque uma pessoa  foi levemente ferida.
http://www.hispantv.com/noticias/palestina/332448/israel-ataca-franja-gaza-tanque-cazas-hamas

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Síria: Guerra de Agressão não declarada dos EUA e da OTAN, usando o terrorismo da Al Qaeda como instrumento de morte e destruição

Isis-financé-par-les-USA


Pesquisa Global, 28 de janeiro de 2017

Os oito conceitos a seguir se destinam a esclarecer a natureza da guerra contra a Síria. 
Nunca foi "uma guerra civil". Se trata de uma guerra  de agressão não declarada  usando terroristas afiliados à Al Qaeda como soldados de infantaria dos EUA-OTAN e seus aliados no Oriente Médio.  
Desde o primeiro dia, os terroristas estiveram envolvidos no assassinato de civis. 
Se iniciou em Daraa como uma insurgência integrada por mercenários salafistas. 
A maior parte do que é apresentado a seguir está respaldado por fontes de informação tradicionais e oficiais.

1. O "Movimento de Protesto" de Daraa, de 17 a 18 de março de 2011

Daraa é uma pequena cidade fronteiriça. Os movimentos de protesto nacional são invariavelmente iniciados em grandes áreas urbanas.
Os "Protestos" de Daraa tiveram todas as aparências de um evento encenado envolvendo o apoio oculto dos "terroristas islâmicos".
Fontes do governo apontaram para o papel dos grupos salafistas radicais. Em coro, a mídia ocidental descreveu os acontecimentos em Daraa como um movimento de protesto contra Bashar Al Assad. Tácitamente reconhecido pelos meios de comunicação, muitos dos supostos "manifestantes" eram assassinos profissionais.
Em uma amarga ironia , as mortes dos policiais eram mais altas do que as dos "manifestantes". Não era um movimento de protesto, era uma insurgência armada.
Em Daraa, do telhado,  franco atiradores  estavam alvejando a polícia e os manifestantes.
Ao ler entre  linhas dos noticiários israelenses e libaneses (que reconhecem as mortes da polícia), surge um quadro mais claro do que aconteceu em Daraa, nos dias 17 e 18 de março. A Israel National News Relatório  (que não pode ser acusado de ser tendencioso em favor de Bashar al Assad) confirmou que:


"Sete policiais e pelo menos quatro manifestantes na Síria foram mortos  em continuos e violentos confrontos que eclodiram na cidade sulista de Daraa na última quinta-feira. ...  e a sede do Partido Baath e Tribunal foram incendiados, em nova violência no domingo. (Gavriel Queenann, Syria: Seven Police Killed, Buildings Torched in Protests, Israel National News, Arutz Sheva, March 21, 2011, ênfase acrescentada)
O noticiário libanês também reconheceu o assassinato de sete policiais em Daraa:

[Eles foram mortos] "durante os confrontos entre as forças de segurança e manifestantes ...  Eles foram mortos tentando afastar manifestantes durante manifestação em Dara'a" 

O jornal libanês  Ya Libnan citando Al Jazeera também reconheceu que os manifestantes  "queimaram a sede do Partido Baath e a sede do  tribunal em Dara'a"  (grifo nosso)
Estas reportagens dos eventos em Daraa confirmaram que, desde o início, não era um "protesto pacífico", tal como reivindicado pela mídia ocidental.
Além disso, a partir de uma avaliação dos números de baixas iniciais (Israel News), havia mais policiais do que "manifestantes" assassinados.

Isso é significativo porque sugere que a força policial pode ter sido inicialmente superada em número por uma organização bem organizada de assassinos profissionais.

2. Recrutamento e Treinamento de Terroristas desde o início,  em 2011

Desde o primeiro dia, os islâmicos "lutadores da liberdade" foram apoiados, treinados e receberam equipamentos da NATO e do Alto Comando da Turquia. Segundo fontes de inteligência israelenses:
A sede da OTAN em Bruxelas e o alto comando turco alta estão preparando planos para seu primeiro passo militar na Síria, que é armar os rebeldes com armas para combater os tanques e helicópteros que estão na linha de frente da repressão do regime de Assad contra os dissidentes. ... Os estrategistas da Otan estão pensando mais em derramar grandes quantidades de foguetes anti-tanques e anti-aéreos , morteiros e metralhadoras pesadas nos centros de protesto para derrotar as forças blindadas do governo. ( DEBKAfile, NATO to give rebels anti-tank weapons, August 14, 2011) 
Esta iniciativa, que também foi apoiada pela Arábia Saudita e o Qatar, envolveu um processo de  recrutamento organizado  de milhares de jihadistas "combatentes da liberdade", que lembra o recrutamento de mujahideen para travar a jihad (guerra santa) da CIA,  no auge da guerra  soviético-afegã:
Também se discute em Bruxelas e Ancara, segundo nossas fontes  uma campanha para mobilizar milhares de voluntários muçulmanos em países do Oriente Médio e no mundo muçulmano para lutar ao lado dos rebeldes sírios.  O exército turco poderá abrigar esses voluntários, treiná-los e garantir sua passagem para a Síria. (Ibidem, grifo nosso)
Estes mercenários foram posteriormente integrados em organizações terroristas patrocinadas pelos EUA e aliados, incluindo Al Nusrah e ISIS.

3. Junho de 2014. A entrada em cena do ISIS na "invasão" do Iraque

O Estado islâmico é protegido pelos EUA e seus aliados.
Se quisessem  eliminar as brigadas do Estado islâmico,  poderiam destruí-los bombardeado seus comboios de picapes Toyota quando atravessaram o deserto da Síria para o Iraque em junho de 2014.

O Deserto Siro-Árabe é território aberto (ver mapa abaixo). Com as aeronave de combate e reação  (F15, F22 Raptor, CF-18) que possuem, teria sido - do ponto de vista militar - uma rápida e conveniente  operação cirúrgica  
Mas o objetivo não era eliminá-los, o objetivo era apoiá-los.



4. Setembro de 2014.  A "Campanha Contra o Terrorismo" de Obama. EUA-OTAN e a Coalisão "Humanitária". Ataques aéreos dirigido contra ISIS"

Em setembro de 2014, Obama ordenou uma campanha de "bombardeio anti-terrorismo" contra o ISIS, tanto na Síria como no Iraque. Esta grande campanha de bombardeio foi iniciada dois meses após a entrada do comboio de caminhonetes Toyota para o ISIS no Iraque, em junho de 2014. A campanha de bombardeio já entrou em seu terceiro ano. Seu objetivo não era  ir atrás do Estado Islâmico (ISIS/Daesh). A coalizão consistia de cerca de 4o países, sendo cinco monarquias árabes aliadas, que são conhecidas por proporcionar apoio tanto ao ISIS quanto a Al Qaeda. A "coalizão de 40 nações que desatou  mais de 200 ataques aéreos na Síria em uma única noite com  aviões de combate de última geração dos EUA  e contou com ajuda de cinco monarquias árabes aliadas" Entre o sistema de armas avançadas supostamente usadas contra o ISIS foi o F -22 Raptor.




O número total de incursões dos EUA e da coalizão contra a Síria e o Iraque é da ordem de 111.410. Isso se traduz em uma média de 147 incursões militares por dia (durante um período de 755 dias).
  • Mais de 8.300 incursões de ataque foram realizados contra a Síria de acordo com fontes do Departamento  de Defesa dos EUA.
  • As missões aéreas de não-ataque foram utilizadas para fins de reconhecimento, logística e coordenação com comandos terroristas no terreno. 
  • 31.900 alvos na Síria e no Iraque foram atingidos por aviões de guerra norte-americanos  (ver tabela abaixo), incluindo edifícios públicos, áreas residenciais, infra-estrutura econômica (tudo feito em nome de uma campanha falsa contra ÍSIS/ Daesh). Durante um período de dois anos (setembro de 2014 a setembro de 2016)
Tudo por uma boa causa. Nenhuma desses ataques aéreos  foi dirigido ao povo sírio, de acordo com declarações oficiais.
E essas declarações "humanitárias" nunca foram questionadas pela mídia ocidental.
A iniciativa foi parte da "Guerra Global contra o Terrorismo". Uma violação do direito internacional. O que estamos tratando são extensos crimes de guerra dirigidos contra o povo da Síria e do Iraque. 

5. 2014-2016: 31.900 "Objetivos atingidos / Destruídos" pelos EUA e  incursões aereas  da Coalizão



Fonte: Tabelas do Departamento de Defesa dos EUA, copyright US DoD, 2016


6. O custo da Campanha Aérea de Obama: 9,3 bilhões de dólares 

755 dias, 12,3 milhões de dólares por dia desde agosto de 2014
Estes são os custos da destruição do Iraque e da Síria. Assassinando dezenas de milhares de sírios, provocando uma crise de refugiados. Estes custos são financiados em última instância pelos dólares dos impostos. Estamos lidando com uma conduta de crimes de guerra extensivos. Os principais meios de comunicação permanecem em silencio nesta questão. 
Estes 12,3 milhões de dólares por dia são o custo de destruir a Síria e o Iraque e matar o seu povo.
Na tabela acima, a destruição "oficial" proporcionada, os números referem-se aos ataques dos EUA contra a Síria e o Iraque.
31.900 alvos como parte de uma guerra contra o terrorismo. Ironicamente, o número de terroristas aumentou dramaticamente como resultado da campanha "contra-terrorismo", sem mencionar a campanha internacional da OTAN patrocinando o recrutamento de terroristas.


7. Armas estadunidenses para a Al Qaeda e ISIS 

De acordo com Jane’s Defence Weekly , citando documentos divulgados pelo  governo dos EUA Federal Business Opportunities (FBO),  os EUA - como parte de sua "campanha de contra-terrorismo" - forneceu aos rebeldes sírios [conhecida como moderada Al Qaeda] grandes quantidades de armas e munições.


Os EUA e seus aliados (incluindo a Turquia e a Arábia Saudita) confiaram no comércio ilícito de armas leves produzidas na Europa Oriental, nos Balcãs, em China, etc., para entrega a grupos rebeldes dentro da Síria, incluindo ISIS-Daesh e Al Nusra. Por sua vez, operando desde as Colinas do Golã ocupadas, as FDI de Israel forneceram armas, munições e apoio logístico aos rebeldes da Al Qaeda que operam no sul da Síria.
Enquanto os aliados de Washington  no Oriente Médio realizam transações obscuras em um flutuante mercado de armas leves, uma parte significativa desses embarques  ilícitos de armas é, no entanto, diretamente encomendada pelo governo dos EUA.
Estas remessas de armas não são realizadas através de transferências de armas internacionalmente aprovadas. Embora sejam o resultado de uma aquisição do Pentágono (ou governo dos EUA), eles não são registrados como ajuda militar "oficial". Eles usam comerciantes privados e companhias de navegação no âmbito de um próspero comércio ilícito de armas leves.
Com base no exame de uma única remessa patrocinada pelo Pentágono em dezembro 2015  de mais de 990 toneladas , pode-se razoavelmente concluir que  as quantidades de armas leves nas mãos dos rebeldes da  "oposição" rebeldes, na Síria, são substanciais e extremamente grande.

Captura do Relatório de Defesa de Jane

8. Armas "Made in Canada" entregues à Arábia Saudita, um Estado Patrocinador do Terrorismo  

O acordo de Ottawa com a Arábia Saudita é coordenado com Washington. Ele serve essencialmente a agenda militar do Pentágono no Oriente Médio, canaliza bilhões de dólares para o complexo industrial militar dos EUA.
Amplamente documentado, a Arábia Saudita é o Estado patrocinador da Al Qaeda afiliada no "grupos de oposição" na Síria, incluindo o Estado Islâmico (ISIS). Riad - atuando em conexão e em nome de Washington - desempenha um papel central no financiamento do Estado Islâmico (ISIS), bem como no recrutamento, treinamento e doutrinamento religioso de forças mercenárias terroristas que ocupam a Síria e o Iraque.
O que isso significa é que o Canadá está vendendo armas para um país que está apoiando e patrocinando organizações terroristas. Além disso, a Arábia Saudita está atualmente envolvida numa guerra de agressão contra o Iêmen em flagrante derrogação do direito internacional.
As armas são "Made in Canada", produzidas pela General Dynamics Land Systems, em Londres, Ontário, uma subsidiária da empresa de defesa estadunidense General Dynamics.
A General Dynamics tem subsidiárias em 43 países, incluindo o Canadá.
A posição oficial de Ottawa é que essas armas, que incluem "veículos de combate com metralhadoras e canhões antitanque", devem ser usadas pela Arábia Saudita apenas para fins de defesa nacional. Eles não devem ser usados ​​contra civis.
Os opositores do acordo de armas de US $ 15 bilhões do Canadá com a Arábia Saudita levaram o Ottawa ao tribunal. A ação foi liderada pelo  Professor de direito Daniel Turp  juntamente com estudantes da Universidade de Montreal. Em um recente julgamento (23 de janeiro) do Tribunal Federal em Montreal, o caso foi rejeitado: "O juiz Daniele Tremblay-Lamer decidiu que o papel do tribunal não era julgar moralmente a decisão do então ministro dos Negócios Estrangeiros, Stéphane Dion, manteve a permissões de exportação permitindo o negócio. "

9. A Libertação de Alepo
Enquanto Aleppo estava sendo liberada do flagelo do terrorismo apoiado pelos EUA e pela OTAN, a maioria dos meios de comunicação acusavam as forças do governo sírio de cometer atrocidades contra civis, descrevendo Aleppo como uma crise humanitária. O que eles não  mencionam é que nos últimos quatro anos a parte oriental de Aleppo foi ocupada por terroristas da Al Qaeda que agora são mantidos como rebeldes de "oposição".
Os terroristas são descritos como as vítimas da agressão do governo sírio. Desde o início, as atrocidades cometidas pelos terroristas são casualmente culpa das forças do governo sírio e seus aliados.
*Michel Chossudovsky é um economista canadense, professor emérito de Economia da Universidade de Ottawa. Foi professor visitante de várias universidades da Europa Ocidental, do Sudeste Asiático e da América Latina.
http://www.globalresearch.ca/syria-undeclared-us-nato-war-of-aggression-using-al-qaeda-terrorism-as-an-instrument-of-death-and-destruction/5571339